"No dia em que eu fui embora, não levei a chave, não deixei bilhete.
Não houve despedida, foi melhor assim.
Pra que dizer o quanto foi bom ou o tanto que feriu à você e a mim?
No dia em que fui embora, não houve poesia, música, ou flor.
Quando parti, fui sem escolha, por necessidade.
Quando fui embora, não houve abraço, nem tchau.
Ir embora é mais difícil do que pensamos, é estranho.
É na verdade, bem mais profundo do que se retirar.
Ir embora, é não voltar."
***
Há alguns dias, li e salvei este pequeno e lindo texto de Angélica Lins, porque sabia que em algum momento ele se encaixaria em alguma vivencia minha. "Partir" é uma atividade rotineira, e tem tudo a ver com a vida.
Essa semana aconteceu um episódio que esteve muito bem relacionado à tônica do texto, eu não poderia ter encontrado ocasião melhor para publicá-lo, e adicionar a ele um pouco das minhas experiências e do meu "refletir".
Tenho chegado a conclusão de que de vez em quando, é necessário eutanaziar alguns sentimentos. Dar lugar a outras memórias, momentos, pessoas. Tudo isso precisa de um espaço. Portanto, é necessário livrá-lo para que este seja ocupado pelo novo. Durante este processo, algumas partidas inevitavelmente acontecem. Ciclos se fecham. Partir é ir sem olhar pra trás. Às vezes a vida nos traz de volta, noutras remonta, noutras emudece o pensamento. É preciso permitir-se, porque não existe partir pela metade.
Semana passada, abri minha conta de uma rede social da qual eu fazia parte. Relembrei fotos e fatos que se passaram por lá. Depoimentos e comentários de amigos que se foram, rostos de algumas pessoas que vão ficar pra sempre, outros que estavam ali apenas avolumando o número de "amigos"... Há tempos vinha relutando em encerrá-la. Minhas visitas ali se tornaram cada vez mais espaçadas e desinteressantes, mas algo me impedia de me retirar por completo. É quase sempre muito difícil reconhecer que uma etapa acabou. Desvencilhar-se de coisas que um dia você considerou importantes encontra barreiras emocionais maiores do que podemos supor. Materialistas, esquecemos que de alguma forma guardamos tudo o que realmente foi importante em um lugar abstrato.
Chega uma hora em que você encontra a necessidade de se despedir de um estilo de vida que você desenhou, mas que por algum motivo, não mais se encaixa ali. E foi justamente isso o que me moveu naquele dia. Você simplesmente decide, sem precisar de muitas justificativas, que aquilo não é mais para você; e que a sua permanência naquele lugar pode ser no máximo perturbadora, ou no mínimo sem sentido.
E as coisas simplesmente vão mudando de prioridade. É como um evoluir. Hora silencioso, noutras, espalhafatoso. Uns mais vagarosamente, outros, quase que instantaneamente. Olhamos para trás e subitamente percebemos como as nossas importâncias mudaram. Mais exigentes ou complacentes, mudamos, sempre.
O fato é que é chegado um momento em que despertamos uma compreensão de que há coisas que não precisam ser carregadas eternamente, simplesmente porque não são mais úteis ou porque nos escravizam, nos levam a lugares onde não gostaríamos mais de ir. Por outro lado, há outras que carregam um pouco da nossa identidade com elas, e que, portanto, ficam, como uma cicatriz, que está ali para nos lembrar do degrau que transpusemos, mesmo após uma queda vertiginosa.
Ir embora é despir-se de coisas, pessoas ou situações que simplesmente pararam de fazer sentido em nossas vidas. Sem questionar se está certo ou errado. Sem cogitar arrependimentos ou culpas.
Partir de verdade é contar com a convicção de olhar apenas a diante. É ter certeza de que um ciclo se fechou. E de que aquilo pode até doer, mas de que você está no controle.
Muito mais que tudo isso, ir embora é dar boas vindas ao que é novo. É ser consciente de que ir é ao mesmo tempo chegar a algum outro lugar, para então recomeçar, inaugurar uma fase onde as suas expectativas podem ser superadas.
"there are far, far better things ahead than any we leave behind."
[C.S.Lewis.]
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