"As pessoas possuem cicatrizes. Em todos os tipos de lugares
inesperados. Como mapas secretos de suas historias pessoais. Diagramas de suas
velhas feridas. A maioria de nossas feridas podem sarar, deixando nada além de
uma cicatriz. Mas algumas não curam. Algumas feridas podemos carregar conosco a
todos os lugares, e embora o corte já não esteja mais presente há muito, a dor
ainda permanece... O que é pior, novas feridas que são horrivelmente dolorosas ou velhas feridas
que deviam ter sarado anos atrás mas nunca o fizeram? Talvez velhas feridas nos
ensinem algo. Elas nos lembram onde estivemos e o que superamos. Nos ensinam
lições sobre o que evitar no futuro. É como gostamos de pensar. Mas não é o que
acontece, é? Algumas coisas nós apenas temos que aprender de novo, e de novo, e
de novo..."
"Tenho
aprendido com o tempo que a felicidade vibra na frequência das coisas mais
simples. Que o que amacia a vida, acende o riso, convida a alma pra brincar,
são essas imensas coisas pequeninas bordadas com fios de luz no tecido áspero
do cotidiano. Como o toque bom do sol quando pousa na pele. A solidão que é
encontro. O café da manhã com pão quentinho e sonho compartilhado. A lua quando
o olhar é grande. A doçura contente de um cafuné sem pressa. O trabalho que nos
erotiza. Os instantes em que repousamos os olhos em olhos amados. O poema que
parece que fomos nós que escrevemos. A força da areia molhada sob os pés
descalços. O sono relaxado que põe tudo pra dormir. A presença da intimidade
legítima. A música que nos faz subir de oitava. A delicadeza desenhada de
improviso. O banho bom que reinventa o corpo. O cheiro de terra. O cheiro de
chuva. O cheiro do tempero do feijão da infância. O cheiro de quem se gosta. O
acorde daquela risada que acorda tudo na gente. Essas coisas. Outras coisas.
Todas, simples assim.
Tenho
aprendido com o tempo que a mediocridade é um pântano habitado por medos
famintos, ávidos por devorar o brilho dos olhos e a singularidade da alma. Que
grande parte daquilo em que juramos acreditar pode ser somente crença alheia
que a gente não passou a limpo. Que pode haver algum conforto no acordo tácito
da hipocrisia, mas ele não faz a vida cantar. Que se não tivermos um olhar
atento e generoso para os nossos sentimentos, podemos passar uma jornada
inteira sem entrar em contato com o que realmente nos importa. Que aquilo que,
de fato, nos importa, pode não importar a mais ninguém e isso não tem
importância alguma. Que enquanto não nos conhecermos pelo menos um pouquinho,
rabiscaremos cadernos e cadernos sem escrever coisa alguma que tenha significado
para nós.
Tenho
aprendido com o tempo que quando julgamos falamos mais de nós do que do outro.
Que a maledicência acontece quando o coração está com mau hálito. Que o
respeito é virtude das almas elegantes. Que a empatia nasce do contato íntimo
com as nuances da nossa própria humanidade. Que entre o que o outro diz e o que
ouvimos existem pontes ou abismos, construídos ou cavados pela história que é
dele e pela história que é nossa. Que o egoísmo fala quando o medo abafa a voz
do amor. Que a carência se revela quando a autoestima está machucada. Que a
culpa é um veneno corrosivo que geralmente as pessoas não gostam de ingerir
sozinhas. Que a sala de aula é a experiência particular e intransferível de
cada um.
Tenho
aprendido com o tempo coisas que somente com o tempo a gente começa a aprender.
Que o encontro amoroso, para ser saudável, não deve implicar subtração: deve
ser soma. Que há que se ter metas claras, mas também a sabedoria de não se
transformar a vida numa sala de espera. Que a espontaneidade e a admiração são
os adubos naturais que fazem as relações florescerem. Que olhar para o nosso
medo, conversar com ele, enchê-lo de cuidado amoroso quando ele nos incomoda
mais, levá-lo para passear e pegar sol, é um caminho bacana para evitar que ele
nos contraia a alma.
Tenho aprendido que
se olharmos mais nos olhos uns dos outros do que temos feito, talvez possamos
nos compreender melhor, sem precisar de muitas palavras. Que uma coisa vale
para todo mundo: apesar do que os gestos às vezes possam aparentar dizer, cada
pessoa, com mais ou menos embaraço, carrega consigo um profundo anseio de amor.
E, possivelmente, andará em círculo, cruzará desertos, experimentará fomes,
elegerá algozes, posará de vítima para várias fotos, pulará de uma ilusão a
outra, brincará de esconde-esconde com a vida, até descobrir onde o tempo todo
ele está."
"É impressionante a maneira como as pessoas processam as coisas de um modo particular, né, mãe?" "Tá se referindo a quê?" "Por exemplo: aqui, somos quatro filhos, dos mesmos pais. Recebemos, igualmente, a mesma educação. Certo?" "Sim." "E, no entanto, não é difícil perceber como cada um entendeu essa educação de maneiras tão diferentes... não é mesmo?" "É uma grande verdade." "Talvez seja isso o que determina o que cada um vai ser no futuro: essa capacidade de interpretar a inFormação." (Será que a gente já nasce com isso?)
Gostaria, primeiramente, de agradecer pelas visitas,
comentários, "curtidas" e sua paciência.
É, paciência...
Grãos de Estrela, Day by Daisy, Na.morada das Palavras (ou
o como quer que eu decida intitular esse blog), é um lugar onde eu venho para
me refugiar um pouco. E quando venho, sinto que devo trazer algo. Logo,
transformo o que vivencio e o que vejo em palavras. São
queixas, desabafos (tristes e alegres), protestos, reclames, celebrações e
mormente saudades. Esse lugar é um depósito de saudades. Na verdade, posts que
versam sobre saudade se intercalam entre os demais, pois são maioria confessa.
Esse ano eu resolvi não fazer um "balanço" dos
bons e ruins momentos do ano passado. Mas me recolhi e pesei os aprendizados. E
estes, me fizeram tão mais resistente do que eu imaginava poder ser... Na verdade
aprendi que aprender não consiste em se livrar daquilo que incomoda, mas
aprender a transpor e sair o mais inteiro possível da situação. Clarice disse uma vez:
"Sinto a falta dele como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante." É como se aprender fosse perceber que você precisa sorrir,
mesmo sem os dentes.
Nem sempre aquilo o que você tem para mostrar é bonito, mas
se você encontrar a melhor forma de mostrar, aquilo pode se transformar em algo
mais valioso que beleza.
Eu aprendi a sorrir sem os dentes, a pegar o barco andando,
a correr atrás, a deixar para trás, a enxergar em mim coisas que eu jamais
havia percebido e a continuar reconstruindo o que eu achava que eram restos,
mas que na verdade eram tudo o que eu tinha, eu.
Essa é a verdade. Meu blog é um grande desabafo, e cada vez
que fujo pra cá posso não estar trazendo algo exatamente bonito, mas acredito
que estou trazendo da forma mais eu de todas, e agradeço a
acolhida. E além disso, o seu tempo, sua paciência, e a sua compreensão, mesmo
que nem sempre se identifique com o que trago, garanto: estou trazendo o meu
melhor! E que fique claro: minhas reflexões não têm um "alvo", não escrevo para atingir ou alcançar ninguém. Mas, se, por outro lado, alguém conseguir encontrar algo de útil, aqui... maravilha!
E como é bom transformar sentimento em palavra, e ver para cada
revolta verter-se em manifesto, cada tristeza transformar-se numa poesia, (isso funciona melhor do
que eu pensava com sentimentos negativos... é na verdade uma terapia alternativa... rs).
E ver enfim... alegria render longas dissertações...
E assim, vou vivendo de palavras.
Porque melhor que reclamar, chorar, pestanejar, agredir ou
revidar... é escrever.
Com as resoluções de renovação que o novo ano nos traz, surge a vontade de modificar várias coisas... ir a novos lugares, desfazer-se do que já não serve ou do que será mais útil a outra pessoa, ver e ouvir coisas novas... não é fácil mudar, por isso, talvez seja melhor começar por coisas pequenas, como o player.
Selecionei músicas antigas, as quais não quero deixar de ouvir, e as que não fazem mais sentido, apaguei. Para que (fazendo jus ao penúltimo post de 2011) elas pudessem dar lugar a novidades. É bom conhecer outros estilos e incorpora-los a sua vida musical, mas não sou a favor de mudanças muito bruscas, afinal, cada um tem sua identidade musical.
Confesso que a maior parte da memória do player ficou ociosa... mas pra quê a pressa em preencher tudo, com tanta rapidez? O ano está apenas começando. Muita coisa ainda está por vir. E domar a ansiedade é um propósito antigo. O importante é começar.
*
Esta música é uma demo do The Strokes que acabou sendo incluída no lado B do single "Heart in a Cage". Por
não ser uma versão oficial (que, by the way, ficou muuuito melhor que a original- "You Only Live Once"), percebe-se que o som não é muito nítido, mas dá
pra ouvir que, ao final, Julian Casablancas, o vocal, diz: "Ok, one more
time..."
E eu nunca mais consegui parar de ouvir. Não é uma música exatamente feliz, mas a minha identidade musical nunca foi só alegrias, anyway... enjoy it!