segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Memorial de Princesa.



-Daisy, enche essas garrafas de água pra mim!
-Não. Na minha casa, eu sou uma princesa. Princesas não fazem nada disso.

Tá. Eu sempre fui muito atrevida. Mas isto está fora de questão, pelo menos hoje.


***

Tanto quanto tantos outros, este é mais um texto sobre saudade. na real, a maioria é. A introdução acaba sendo só um aperitivo pra chegarmos lá.
É que a gente vai vivendo, vivendo... guardando as memórias, e chega um momento em que elas pedem pra sair, transformam-se em palavras e muitas vezes ganham este destino: daybydaisy, grãos-de-estrela, ou o como quer que este meu lugar se entitule atualmente.



Há inexatos 26 anos e pouco, eu chegava por aqui. Nunca foi silencioso, ou calmo, ou tranquilo. Era um nascimento, e não um enterro. E nessa vida de perdas e ganhos, comecei ganhando. Deus me deu uma família grande: pai, mãe, tias, tios, avôs e por último, mas de importância infinita, avós. Hoje eu vou falar sobre uma delas.

Um sorriso tranquilo, paz no olhar, fala cândida. Ela era assim. Linda. Imperturbável. Um jeito de quem cansou de lutar, mas também que quem viu resultado. E queria ver mais. Vó Dilza era matriarca. Depois que Vovô partiu, assumiu uma família de onze filhos. E cumpriu sua missão.

Sempre que alguém se vai, parece que fica passando um filme dentro da nossa cabeça. Se você já perdeu alguém, sabe do que eu estou falando. Se não, pode parecer confuso. O fato é que esse filme não sai da minha cabeça. É um resgate de lembranças que ressucitam continuadamente.
Eu nunca vou esquecer o cheiro peculiar da sopa de carne, os domingos depois da praia, os comentários sobre a minha magreza extrema, a história de vida narrada minusciosamente, as duas alianças no dedo (um sinal de lealdade que eu raramente vi em outro lugar), o jeito descontraído de censurar meus atrevimentos, a preocupação constante com todos, o jeito de me dizer que tudo ia ficar bem, as orações, sempre, e a proteção que eu sinto, todos os dias.

Vó ia orar pela família todos os domingos, religiosamente, no melhor sentido da palavra. Orava aos que estavam perto e aos de longe, mais ainda. Parecia um jeito de entregar todo mundo um pouquinho pra Deus e dividir sua preocupação com Ele.

Jamais reclamava. Estava sempre ali, serena, bíblia na mão, sempre um conselho preparado, na hora certa.

Lembro de um dia das mães em que ela deu de presente a minha alguma coisa onde havia a frase gravada: "A Mulher Sábia Edifica Seu Lar". Gostaria de dizer que ninguém fez isso como Ela fez. Sempre conciliando, abrindo mão, alicerçando. Um exemplo, em todas as condições que a palavra exige.

Esse episódio que eu narrei ali em cima foi de uma vez em que meus pais viajaram e me deixaram aos cuidados dela. Isso acontecia com frequência. Depois desse dia, ela nunca mais parou de me chamar de princesa. Era recorrente a lembrança do ocorrido. Sempre ríamos muito ao recordar o meu atrevimento desde cedo.

É a pessoas como ela que eu devo tudo o que me tornei e o que me tornarei. Porque não houve uma pessoa nessa vida que me dissesse com mais convicção que eu iria vencer do que ela. E olha, ela foi tão convincente que eu resolvi acreditar. Era dela que sempre viriam palavras de encorajamento, orações fortes pra me guardar dos males da vida e aquela vontade de ver tudo aquilo que ela desejou realizar-se. "Será que vou ter o orgulho de te ver formada?!" ou "Será que vou conhecer meus netos?!". Vai. De algum outro lugar que não aqui, mas vai. De um lugar bem melhor, na verdade. Promessa é divida, Vó. E ninguém acredita mais nisso do que nós.

No caráter, na personalidade, eu queria ser um pouco como ela. Sempre que alguém menciona a palavra "calma" como uma característica que me descreve, eu gosto de pensar que herdei um pouco isso dela. (Mesmo que eu não seja uma pessoa calma! cof cof).

E quando a gente perde alguém assim, o mundo passa a girar meio diferente. É um esforço muito grande achar que as coisas têm o mesmo sentido de antes.

Fazem oito inexatos meses que a minha Vozinha foi chamada para o mundo espiritual. Ainda dói, e é a primeira vez que eu falo concretamente sobre isso, desde então. Achei que não conseguiria, mas aqui estou.


Essa foi mais uma despedida repentina que me deixou um vazio enorme, insubstituível. Espero que esteja bem. E que esteja olhando por nós, sempre, Nossa Matriarca.

Talvez demore um pouco para revê-la, talvez nem tanto. Quem sabe?!
A data é um mistério. Mas o reencontro é certo.


[DaisyLima.]
***


De trás pra frente: estamos em Agosto. Em Agosto, a gente fala de pessoas que fizeram e fazem parte da minha história. ;*


 *** 

Nenhum comentário:

Postar um comentário