Quase dois meses longe da caneta. Poderiam ser justificados como o writer's block ou a famosa falta de tempo, mas não. Falta de vontade mesmo, ausência crônica de motivação. Recolhimento diante de conflitos existenciais. Presença de cenas cotidianas que modificam seu humor e maneira de pensar, pelo menos temporariamente.
Eu explico:
9 de Dezembro de 2012, meu primeiro plantão no centro atendimento toxicológico do IJF. Não, isso não vai ser mais um manifesto revoltadinho sobre as condições precárias da saúde no país. O assunto aqui é a própria condição humana. Nada menos que DOZE de dezesseis atendimentos realizados foram tentativas de subtrair a própria vida. A cada nova ocorrência, um choque. Eu estava assistindo ali, de camarote, um verdadeiro espetáculo da miséria humana. Mal conseguia pensar ao fim do dia. Tudo o que desejava era sair dali.
Ok, a vida é de cada um e cada um faz dela o que bem entender, mas é extremo passar a semana inteira vendo pessoas lutando contra um câncer pra viver um ou dois meses mais e em um único dia presenciar doze pessoas perfeitamente saudáveis abrirem mão de tudo. É um tapa na cara. E eu concedi a mim mesma esse tempo para refletir e entender.
E acho que entendi.
Entendi acima de tudo que empatia é sempre necessária. Entendi que é preciso colocar-se no lugar daqueles que ali estão para entender sua condição e seu propósito, mesmo que isso signifique mergulhar em seus escombros emocionais. E que precisamos descer do pedestal em que nos encontramos para não julgar.
E diante de tudo, percebi que, entre os dois lados da moeda, ninguém quer de fato ir. É característica do ser humano a dificuldade de despedir-se, de desapegar-se, e por mais que seja penosa a sua existência, ninguém é vazio de sonhos. Viemos aqui porque temos algo a cumprir e essa tarefa cabe a cada um de nós, individualmente, e essa é uma mensagem que todos sabemos, mesmo que soe como um eco distante no meio da correria e das chateações.
Passei a enxergar que, na verdade, o que o paciente que luta pela vida quer (e precisa), é invariavelmente o mesmo que aquele que tenta se desfazer dela: ser cuidado.
O ser humano padece de uma carência imensurável e, mesmo que duro na queda, uma hora há de manifestá-la. Quando comecei a perceber cada olhar esperando por ser correspondido, ouvidos carentes de uma palavra, bocas sedentas por narrar suas histórias e fazer com que seus motivos fossem compreendidos e não taxados de banais, compreendi que os motivos são os mesmos, embora as condições sejam distintas. E mais... vi como as pessoas carecem de demonstrações de quão importantes são!
Pode ter soado piegas, mas essa foi a minha leitura da nova vivência. Não vou dizer que foi bom. Na verdade, hoje finalmente cumpri meu ultimo plantão e isso me trouxe a maior sensação de alívio da minha vida. O texto soa mais como um desabafo do que qualquer outra coisa. É acima de tudo, uma reflexão sobre a vida.
E se toda vivência tem que deixar algum aprendizado, que o desta seja o de valorizar, cuidar, e, acima de tudo, conscientizar as pessoas que amamos do quanto elas são importantes, sem economias.
"Solitude é o isolamento ou reclusão voluntário, quando o indivíduo busca estar em paz consigo mesmo. Diferente da solidão que em sua essência é o estado emocional do indivíduo que deseja ardentemente uma companhia e não a tem. Um indivíduo pode estar cercado de amigos, em meio a um salão de festas muito animado, e ainda assim estar corroído pela solidão.
Em alguns casos, o indivíduo escolhe isso pelas experiências que lhe foram desagradáveis em algum tempo atrás. Sendo então a solitude uma maneira de evitar que o mesmo incidente ocorra novamente."
"Que eu queria poder te dizer cem palavras Eu queria poder te cantar cem canções Eu queria viver morrendo em sua teia Seu sangue correndo em minha veia Seu cheiro morando em meus pulmões Cada dia que passo sem sua presença Sou um presidiário cumprindo sentença Sou um velho diário perdido na areia Esperando que você me leia Sou pista vazia esperando aviões"
tormento e paz
profundidade e superficialidade
medo e coragem
esquecimento e lembrança
cronologia e anacrônismo
dor e alívio
nunca e ainda
nada e tudo
vazio e completude
revolto e calmo
ausência e presença
distância e proximidade
relatividade e convicção
sonho e pesadelo
mal e bem
diálogo e monólogo
prosa e poesia
silêncio e música
diminuto e superlativo
temporais e primaveras
riso e pranto
frio e calor
amargo e doce
tímido e vulgar
lucidez e loucura
fugacidade e vagarosidade
desapego e saudade
individualidade e sinergismo
desdém e vontade
confuso e claro
comum e raro
passado e futuro
chaga e cicatriz
ebriedade e sobriedade
desânimo e ânsia
espinhos e flores
presunção e humildade
nós e laços
monocromático e colorido
crítica e elogio
culpa e compreensão
mágoa e perdão
solidão e solitude
braço e abraço
fim e (re)começo
monólogos e diálogos
lua e sol
pecado e remissão
meio e inteiro
eu e você
você e eu
cem palavras.
antônimos que não se neutralizam.
Cada pessoa que passa por nós nos deixa uma história. Às vezes pra contar, outras pra calar.
um dia, um moço no ônibus pediu ajuda. vendia chaveiros com estampas de cartas de baralho: "escolhe um?!" dentre tantos naipes e personagens, um em particular sempre me despertou o interesse: altiva, serena e ao mesmo tempo tão imponente, portadora de uma exuberância peculiar, persistente. jamais abandonara o baralho. dona de si, e de uma maldade quase cômica. "queen of hearts".
sem balbuciar, disparei: "quero a rainha de copas!"
“Ela é uma moça de poses delicadas, sorrisos discretos e
olhar misterioso. Ela tem cara de menina mimada, um quê de esquisitice, uma
sensibilidade de flor, um jeito encantado de ser, um toque de intuição e um tom
de doçura. Ela reflete lilás, um brilho de estrela, uma inquietude, uma solidão
de artista e um ar sensato de cientista. Ela é intensa e tem mania de sentir
por completo, de amar por completo e de ser por completo. Dentro dela tem um
coração bobo, que é sempre capaz de amar e de acreditar outra vez. Ela tem
aquele gosto doce de menina romântica e aquele gosto ácido de mulher moderna.”
Gratidão é sentimento que ocupa espaços grandes, e que, as vezes, não cabe só no coração. Escorre pelos olhos em lágrima, espalha-se pelas mãos e braços em abraços, toma a face em sorriso e o corpo em emoção. Sempre acreditei que nossa construção se dá a partir de nossas (con)vivências. E são elas que nos tornam tão grandes quanto os espaços que ocupam. Hoje, meu nome é gratidão. Agradeço a quem persistiu em mim, a quem me lançou um segundo olhar, e que, com calma, resolveu me dar uma segunda, terceira, quarta chance (e tantas mais...). E a quem enxergou atenção na minha curiosidade apaixonada, meiguice na minha preguiça de ser incisiva, inteligência na minha sagacidade, persistência na minha insistência, caráter na minha mania de fazer tudo a risca, garra na minha objetividade, poesia nos meus rabiscos, dedicação na minha assiduidade chata, precaução na minha insegurança, prudência na minha negligência, timidez na minha inibição, calma na minha passividade, charme no meu desengonço, perfeccionismo no meu criticismo, sensatez na minha indecisão, carinho na minha carência, cautela na minha vagarosidade, maturidade na minha seriedade, alguma delicadeza na minha "escroteza", espontaneidade na minha loucura. Agradeço aqueles os que me deram, me dão e me darão oportunidade de crescer, de demonstrar quem realmente sou e, principalmente, por ter em quem me espelhar. Agradeço aqueles que me presenteiam com a palavra certa, no momento certo e aqueles que respeitam o meu silêncio, quando o elejo. Agradeço aqueles que acreditam nas minhas idealizações e de alguma forma contribuem para que eu as realize. Agradeço aqueles que são totalmente distintos de mim, mas que ainda assim me dedicam respeito e até alguma admiração. Agradeço àqueles que me ensinaram que trabalho não é o caminho mais curto, mas o melhor e mais digno para alcançar meus objetivos. Agradeço a quem qualquer lição me ensina e a quem me dá a oportunidade de surpreender. Agradeço a quem me ensina que o valor dos sentimentos é SEMPRE superior ao das "coisas". Agradeço a quem de alguma forma fez o meu 21 mais florido, seja com sorrisos, palavras bonitas, carinho, atenção, energias boas. E a Deus, por todo o aprendizado, amigos, família e até pelos obstáculos diários, porque, se não fosse por eles, minhas vitórias não teriam um gosto tão doce e a história que tenho escrito poderia ter um desfecho sem graça. Tenho tanto, tanto, tanto a agradecer, que teria que ter passado o dia inteiro (quem sabe a semana) de joelhos. Obrigada ao que já veio e o que virá. Obrigada por, de alguma forma, me tornar maior. Obrigada, obrigada, obrigada!
em agosto as luas são mais bonitas, e o céu mais estrelado. o florescer é mais perfumado, e o mar ondula numa sincronia que mais parece uma dança. as brisas são suaves, o pôr-do-sol assume um alaranjado especial e as nuvens desenham formas mais interessantes. agosto é como verão... "quente o coração". agosto conjuga início e recomeço. agosto é onde as coisas boas acontecem. bem vindo seja!
"As estações mudam. Às vezes é inverno, às vezes é verão. Se você permanecer sempre no mesmo clima, você se sentirá estagnado. Você precisa aprender a gostar daquilo que está acontecendo. Chamo a isso de maturidade. Você precisa gostar daquilo que já está presente.
A imaturidade é ficar vivendo nos "poderias" e nos "deverias" e nunca vivendo naquilo que é."
A maior parte das pessoas, quando vão a um
espetáculo de balé, avaliam uma bailarina por sua postura, seu tronco ereto e
impecavelmente exuberante. Não que isso não deva ser observado, mas, sabiam que
um dos pré requisitos para passar na seleção do Bolshoi é o formato dos pés?
Pois é.
Durante um ato,
poucos são os que refletem sobre os pés da bailarina. Os caminhos por onde
caminharam para que chegasse até ali e o peso que os mesmos tiveram de aprender
a sustentar.
Poucos são os que
veem além. O quanto ela teve que praticar e dedicar-se...
Horas a fio
repetindo os mesmos movimentos, e cuidadosamente refletindo o sentimento de
cada ato, sem que aquilo pareça puramente mecânico.
E quando a
bailarina vai ao chão?
Significa que ela
treinou menos ou que seus pés sejam menos feios?
Sim. O chão nunca
pode ter sido encerado em excesso ou os tacos mal colocados.
A bailarina
defectível engordou ou praticou menos.
Assistir a
bailarina em todo o seu esplendor e glória e ao mesmo tempo associar a isso o
fato de que ela tem terríveis dores musculares e seus pés são calosos e
bolhosos é destoante, não é mesmo? Afinal de contas, na hora de subir ao palco
e mostrar a que veio, as sapatilhas surradas são guardadas e os pezinhos estarão
envoltos em novas e lustrosas.
Por isso é fácil
para muitos admirar o que se vê, o produto final.
Infelizmente a
maioria ignora as etapas anteriores.
Mais foi a dor e o
esforço que levaram a bailarina ao seu cume pessoal: a ponta dos seus próprios pés.